Perguntas e Respostas

Reinfecção por COVID-19: é possível?

Esse foi um assunto bem comentado nos últimos dias, já que nesta segunda-feira, 24, pesquisadores da Universidade de Hong Kong documentaram o primeiro caso de reinfecção da COVID-19 no mundo.

Na realidade, existem vários casos de reinfecção em investigação no mundo todo, inclusive aqui no brasil, onde a USP e fiocruz investigam 20 casos de reinfecção.

Mas então no que esse caso difere para que os pesquisadores possam afirmar que a reinfecção é possível?

O ponto chave é que eles sequenciaram os genomas dos vírus e demonstraram que eles pertencem a diferentes linhagens, ou seja, isso refuta a hipótese de que a nova infecção seria na verdade uma disseminação viral persistente.

Do ponto de vista clínico, chama muito a atenção que o segundo episódio de infecção nesse homem de Hong Kong é que ele foi assintomático!

Os pesquisadores só descobriram essa segunda infecção pois o paciente estava retornando de uma viagem à Europa e colheu um novo swab para triagem.

Mesmo assintomático o paciente foi internado e acompanhado com exames laboratoriais, que mostraram mais duas evidências de que essa seria sim uma nova infecção: uma soroconversão para IgG (ou seja, ele era negativo no início da internação e veio positivo 5 dias depois) e uma discreta elevação da proteína C reativa que remitiu durante a internação.

Então tá: a reinfecção por COVID-19 é possível, o que isso significa?

Primeiro que é muito importante prosseguir na investigação dos outros possíveis casos de reinfecção, a própria OMS chamou a atenção que essa pode ser uma situação atípica. Como assim? Talvez existam certas características que predispõe indivíduos a reinfecção e protegem outros.

Eu acho que é bem provável que a reinfecção seja mais regra do que exceção, pois diversos outros coronavírus são endêmicos e causadores de resfriados comuns, como o 229E, o OC43, o HKU1… e infelizmente a reinfecção por eles é bem comum!

Em segundo lugar, será importante testar as vacinas também em quem já teve infecção. Os protocolos atuais em geral têm excluído essa população, mas talvez seja essencial entender qual resposta imune a vacina gera em quem já foi exposto ao vírus.

Falando em resposta imune… será que quem já teve uma infecção vai ter mais chance de ter um quadro mais brando como foi o caso desse senhor em Hong Kong?

Sim, se a gente pensar pelo lado que os indivíduos que já tiveram contato com a COVID-19 teriam uma resposta celular duradoura e que essa resposta celular pode ter um papel importante em diminuir a gravidade da doença. Mas, por outro lado, um estudo sobre o SARS-CoV desse mesmo grupo demonstrou que a presença de anticorpos contra a proteína spike pode estar associada mais dano pulmonar.

É a velha história da interação agente hospedeiro presente em todas as doenças infecciosas e que fica bem evidente agora que estamos passando por uma pandemia.

Para um mesmo agente etiológico, muitas apresentações são possíveis e só estudos sérios de diversos casos, em diversos cenários vão nos ajudar a revelar o que é mais provável.

Na prática, a recomendação que fica para população é que não devemos nos descuidar das medidas essenciais de prevenção: distanciamento social, higiene das mãos e máscaras, mesmo se já tivermos sido infectados uma vez.


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